Reino da Virgem Mãe de Deus

Fé e Política


O Crucifixo e a Democracia

Autor: Wambert Gomes Di Lorenzo*
Publicação original: 2005

O Estado é Laico, a sociedade não. Não há e jamais houve na história uma sociedade laica. A tentativa de laicizar a sociedade, via de regra, parte de
minorias inconformadas com o modo de vida e o éthos da comunidade onde vivem. Pior é – a história demonstra – quando esta tentativa parte de magistrados que, no desvio de sua função pública, usam uma força coercitiva que não lhes pertence como instrumento particular de sua ideologia na vã esperança de forjar a sociedade a sua própria imagem e semelhança. Tal devaneio tem nome: movimento totalitário.

A proposta de retirar símbolo do cristianismo dos espaços públicos seria apenas esdrúxula se não fosse um sutil ataque a nossa débil democracia já tão golpeada. A bizarra comparação do símbolo religioso ao de um time de futebol denuncia ainda a mixórdia teórica que fundamenta tal pretensão. Note-se que, se é para tirar crucifixos, devemos antes rasgar a bandeira da República que ao propagar Ordem e Progresso assume como lema do Estado uma religião em particular – o positivismo – da qual um dos poucos templos resta em Porto Alegre.

O Estado é uma criação da sociedade para que esta se organize politicamente. Não há Estado sem sociedade, mas uma sociedade pode subsistir sem o Estado. O poder político então, como consagra a constituição, emana imediatamente do povo e em nome dele deve ser exercido. Esse povo afirmou estar sob a proteção de Deus tanto na Constituição Federal quanto na Constituição Rio-Grandense. Alías, quando José Genoíno propôs a emenda supressiva n. 000523/87 para que – pelos mesmos argumentos dos militantes inimigos do crucifixo – Deus fosse retirado do preâmbulo da Constituição, teve sua proposta rejeitada por 74 votos contra um único: o dele próprio. Entre os que rejeitaram estava Roberto Freire – ateu e comunista – que, reconhecendo seu mandato representativo, declarou, em nome do povo brasileiro, seu voto contrário. Os dados oficiais posteriores à promulgação confirmavam seu acerto: 95,26 % dos brasileiros praticam religião, destes, 97% são cristãos. Em 2001, pesquisa da Veja (1737) revelou que 99% dos brasileiros acreditam em Deus, destes 93% são cristãos.

O Brasil, que foi Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz, antes de ser um Estado é um povo que crê. E é porque crê que vive de sua própria esperança. O ataque ao crucifixo é um insulto a este povo e a esta sociedade que legitimam o poder.

 

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* Advogado, professor na PUCRS.