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Santa IgrejaNota do editor: em Janeiro de 2009, Santo Padre Bento XVI suspendeu as excomunhões dos 4 Bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX): Dom Bernard Fellay, Dom Bernard Tissier de Mallerais, Dom Richard Williamson e Dom Alfonso de Galarreta. Eles foram excomungados em 1988 por terem sido ordenados sem autorização do saudoso Papa João Paulo II.
O Santo Padre Bento suspendeu as excomunhões como um “ato de misericórdia” (como ele mesmo se referiu, ver notícia da ACI de 28 de Janeiro último).
Neste texto, publicado originalmente no Orkut, Dom Antonio Carlos Rossi Keller (Bispo da Diocese de Frederico Westphalem-RS) faz um esclarecedor comentário sobre esta situação e sobre as “facções” na Santa Igreja.
Autor: Dom Antônio Carlos Rossi Keller, Bispo da Diocese de Frederico Westphalem-RS
Extraído de http://tantumergo.wordpress.com/2009/01/24/
Publicação original: Janeiro de 2009
Por um ato de grandeza, o Santo Padre aceitou o pedido (pedido que poderia ter sido negado…) do superior da FSSPX revogando a excomunhão que pesava sôbre os quatro bispos ordenados de forma ilícita. O resto, agora, são conjecturas, opiniões, etc…A carta de D. Fellay expressa a alegria por isto, reconhecendo o gesto magnânimo do Santo Padre.
A partir de agora, inicia-se uma nova fase: que lugar a FSSPX ocupará no “Corpus Ecclesiae”. como a FSSPX poderá ajudar a Igreja a acolher e entender com maior cuidado a Tradição; em que sentido a FSSPX entende que a Igreja tenha-se desviado da autêntica Tradição, com a reforma litúrgica, a questão do diálogo ecumênico, e outros pontos nos quais a FSSPX discorda do Concílio Ecumênico Vaticano II. Nem a FSSPX está negando sua visão, nem a Santa Sé está abandonando o Concílio Vaticano II. Agora, como já tinha dito antes, começa uma nova fase, a do diálogo. Parece que alguns já estabeleceram quem ganhou ou quem perdeu. Por favor, este não pode ser o nosso espírito. Se ficarmos no prisma de quem perdeu, ou quem ganhou, com ufanismos infantis. Vamos nos esquecer da caridade, e cair na mentalidade de times de futebol. Por favor, não é. Quem ganhou foi a Igreja, “Unam, Sanctam, Catholicam et Apostolicam Ecclesiam”.
Então, penso que vivemos um momento histórico. A aproximação de um grupo de irmãos (coeptum fidelium), que se organizaram na busca de uma fidelidade à Tradição da Igreja. Um grupo consistente, que tem razões, segundo sua visão teológica, em não aceitar determinadas situações criadas após o Concílio Vaticano II. Não é um grupo de traidores da fé, pelo contrário. Resistiram de forma organizada, segundo critérios fundamentados na fé, a uma situação por eles considerada anormal na Igreja. O como organizaram-se, a maneira de levar adiante esta contestação, isso sim podemos discutir, não a intenção, que sempre foi aquela de fidelidade à Igreja de Cristo. Poderia ter sido de outra forma, de outra maneira? Talvez, apesar que “poderia” não é a realidade. Tudo pode ser diferente, mas em cada momento, diante de situações bem concretas, fica difícil às vezes não somente ser compreendido, mas também compreender.
Temos, a meu ver, ainda outro grupo, talvez este mais consistente, que são aqueles que “engolem” com muita dificuldade a visão do Santo Padre, denominada com muita propriedade, a “hermenêutica da continuidade, da não ruptura” que distingue o espírito e a realidade do Concílio Vaticano II. Este grupo, muito mais numeroso, mais consistente, talvez não tão organizado, está disseminado em todas as realidades eclesiais e em todas as partes do mundo, alimenta-se da grande parte de teólogos e pastoralistas da Igreja, que fazem ouvidos moucos (em bom português: são surdos mesmo) à visão, aos pronunciamentos, aos documentos, etc., emanados da autoridade suprema da Igreja. São aqueles que continuam a fazer exatamente aquilo que aprenderam, ouvindo ou vendo fazer, nos abusos não autorizados pelo Vaticano II, usando a autoridade do mesmo Concílio para fundamentarem suas visões aberrantes a respeito de Doutrina, Liturgia, Moral, Ecumenismo, etc.
Finalmente, existe um terceiro grupo, uma terceira realidade na Igreja de hoje, que são aqueles que estão em sintonia com o Magistério da Igreja, em espírito e em verdade. A estes, a situação dos nossos irmãos da FSSPX incomodava muito, no sentido de sofrer também em ver que, de alguma maneira estes irmãos tinham razão, mas não em tudo, já que segundo a visão deste grupo, deste “coeptus fidelium” também consistente, também buscando a fidelidade à Igreja, a separação sempre foi uma chaga. Ver irmãos nossos, com a mesma fé, separados, com o dedo em riste contra nós, acusando-nos de traição à Tradição que tanto amamos, não é nada agradável.
A atitude do Santo Padre, a meu ver, vem de encontro a esta situação dolorosa, muito mais dolorosa para João Paulo II, que teve que engolir esta “separação” em seu pontificado, claramente voltado para sanar os problemas com o outro grupo de católicos, os que causaram e continuam a causar um mal ainda maior para a Igreja, estes sim traindo e abandonando a Tradição.
Bento XVI, de certa maneira, a meu ver, fez aquilo que todos nós, tanto os da FSSPX como os católicos que sempre procuraram estar unidos ao Santo Padre, reconhecendo no espírito e na letra do Concílio Vaticano II não uma ruptura, mas uma continuidade com a legítima Tradição da Igreja, então, ele fez o que nós mais queríamos que acontecesse: o diálogo desarmado e construtivo.
Não temos posições para defender ou para renunciar: temos a Igreja, a qual queremos cada vez mais bela e resplandecente na fidelidade a Cristo. Agora, após esta atitude que inclui humildade, magnânimidade, que são coisas de Deus, por isso, produzem alegria e paz, resta ainda, na Igreja um grave problema para ser afrontado. Aquele do “segundo grupo”… a meu ver, muito mais grave e sério, já que indefinido, e que age de forma subreptícia, por baixo dos panos, e que está presente, diria, fortemente presente, em muitas realidaes eclesiais (cúrias, seminários, institutos teológicos, etc…). Estes não tem mudado em nada sua visão e sua ação…