Reino da Virgem Mãe de Deus

Mí­stica


O Sagrado Coração de Jesus ao mundo

O culto ao Sagrado Coração esteve presente já no início da Igreja, desde a Cruz, onde este divino Coração foi aberto para os fiéis como um asilo inviolável, sacrário das divinas riquezas, que derrama sobre nós as torrentes da misericórdia e da graça. Os maiores Santos de todos os séculos compreenderam o segredo desta devoção muito antes que ela fosse revelada de modo especial. Seu desenvolvimento é devido especialmente a São Bernardo, e também a Santa Matilde, Santa Gertrudes e São Boaventura; em seguida, pelos Jesuítas, pelo Bem-aventurado Henrique Suso, São Bernardino de Sena e sobretudo São João Eudes (1601-1680).

Depois das revelações do Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque, a festa, aprovada por Clemente XIII em 1765 para algumas dioceses, foi estendida a toda a Igreja por Pio IX em 1856. Em 1899, Leão XIII consagrou todo o gênero humano ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Em 1928, Pio XI definiu a festa do Sagrado Coração como a característica de nossos tempos.

Lê-se na vida de Santa Gertrudes que, sendo um dia favorecida com a aparição de São João Evangelista, perguntou-lhe por que motivo, tendo ele descansado sobre o Coração de Jesus durante a Ceia, nada havia escrito para instrução nossa sobre os movimentos do divino Coração; e que o Santo respondera com estas palavras memoráveis:

“Eu estava encarregado de escrever, para a Igreja ainda no berço, a palavra do Verbo Encarnado; Deus, porém, reservou a suavidade dos sentimentos do divino Coração para manifestá-la nos últimos tempos, na velhice do mundo, a fim de reacender a caridade que arrefecer-se-á consideravelmente.”

 

A revelação do Sagrado Coração

Essa revelação aconteceu no século 17, na França, a uma religiosa da Ordem da Visitação, de Paray-le-Monial, de nome Margarida Maria. Ela foi favorecida por Nosso Senhor com preciosos dons e visões, e por três vezes Ele lhe concedeu mensagens para toda a Igreja. Essas são as chamadas “três Grandes Aparições” de Paray-le-Monial .

Sagrado CoraçãoA primeira grande aparição foi no dia 27 de dezembro de 1673, como escreveu Santa Margarida Maria:

“No dia de São João Evangelista, depois da Comunhão, apresentou-se-me o Coração de Jesus, como em refulgente trono formado de fogo e chamas mais brilhantes do que o sol. A chaga que recebeu na Cruz aí aparecia visivelmente, e uma coroa de espinhos circundava esse sagrado Coração, que tinha uma cruz em cima. Revelou-me o divino Salvador significarem esses instrumentos da Paixão, que o imenso amor, que aos homens tinha, havido sido origem de todos os seus sofrimentos; que desde o primeiro instante de sua Encarnação, todos esses tormentos e desprezos lhe foram apresentados; que desde logo a Cruz foi, por assim dizer, plantada em Seu Coração; que aceitou todas as dores e humilhações que Sua santa Humanidade tinha de sofrer no curso de sua vida mortal, e assim também os ultrajes a que Seu amor aos homens O exporia até a consumação dos séculos, habitando com eles no Santíssimo Sacramento.”

E o Senhor lhe disse:

«Meu divino Coração está tão abrasado em amor pelos homens, que não podendo mais conter em si as chamas de sua ardente caridade, lhe é necessário que as derrame por qualquer meio, e se lhes manifeste, a fim de enriquecê-los com os tesouros que em si encerra; tesouros cujo valor são graças de salvação e de santificação, para tirá-los do abismo da perdição.»

 

A Grande Promessa

Na primeira aparição, Jesus havia revelado Seu “amor apaixonado” por nós; na segunda aparição, Ele revelou que esse amor não A Grande Promessaé retribuído, mas ofendido e desprezado. Conta-nos Santa Margarida Maria:

“Estando eu um dia, diante do Santíssimo Sacramento exposto, apareceu-me o Divino Mestre todo radiante de glória com as suas cinco chagas resplandecentes quais cinco sóis. De sua sagrada Humanidade saíam chamas de todos os lados, porém principalmente do seu adorável peito, que parecia uma fornalha: no meio destas chamas, mostrou-me seu suavíssimo Coração, que era o foco das chamas. Revelou-me então as maravilhas inexplicáveis do seu amor, a que excesso havia chegado, amando os homens, de quem só recebia ingratidões.

«Eis aqui, me disse Ele, o que Me é mais sensível do que tudo o que sofri em Minha Paixão, tanto que, se correspondessem ao Meu amor, pouco contaria tudo quanto por eles fiz, e quisera, se fosse possível, fazer ainda mais; eles, porém, só têm tibieza e repulsa para todos os meus ardentes desejos de fazer-lhes bem».”

Fez então o Senhor a chamada “Grande Promessa”, relacionada à devoção das Primeiras Sextas-feiras:

«Eu prometo, na excessiva misericórdia do meu Coração, que meu amor todo-poderoso concederá a todos aqueles que comungarem, em nove primeiras sextas-feiras do mês seguidas, a graça da penitência final, que não morrerão na minha desgraça, nem sem receberem seus sacramentos e que o meu divino Coração será o seu asilo seguro no último momento.»

Como uma preparação para essa consagração da primeira sexta-feira de cada mês, Jesus pediu que na véspera se pratique o piedoso exercício da Hora Santa, meditando os sofrimentos de Sua Paixão, especialmente Sua agonia no Horto das Oliveiras:

«E para me acompanharem na humilde oração que eu apresentei a meu Pai, no meio de todas as minhas angústias, todas as quintas-feiras levantar-te-ás, entre as onze horas e a meia noite, para comigo te prostrares durante uma hora, com o rosto em terra, assim para aplacar a ira divina, pedindo misericórdia para com os pecadores, como para adoçar, de alguma maneira, a amargura que eu sentia com o desamparo em que me deixavam meus apóstolos, o qual me obrigou a lançar-lhes em rosto o não terem podido velar uma hora comigo.»

A Igreja aceita a Hora Santa como válida para esta devoção a partir duas horas da tarde, até a meia-noite.

 

A Festa do Sagrado Coração

Sobre a terceira grande aparição, em junho de 1675, escreveu Santa Margarida Maria:

“Estando diante do Santíssimo Sacramento em um dia de sua oitava, recebi de meu Deus graças inefáveis. Sentindo-me inflamada em desejos de retribuir-lhe amor com amor, disse-me Ele:

«Tu só poderás provar-me mais amor, fazendo o que tantas vezes te hei pedido».

E, mostrando-me seu divino Coração, disse-me:

«Eis aqui o Coração que a tal ponto amou os homens, que nada poupou, até esgotar-se e consumir-se, para testemunhar-lhes seu amor; e entretanto só recebo da maior parte deles ingratidões, pelas irreverências, sacrilégios, desprezo e tibieza com que me tratam no meu Sacramento de amor. O que me é ainda mais sensível, é serem corações que me foram consagrados, os que assim me tratam. Por isso te pe-ço que se dedique a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento a uma festa particular com o fim de venerar o meu Coração, fazendo-lhe ato de reparação, comungando-se nesse dia em desagravo pelas indignidades recebidas durante o tempo em que esteve exposto sobre os altares.»

«Prometo que meu Coração dilatar-se-á para difundir com abundância os influxos de seu divino amor sobre todos quantos lhe tributarem essa homenagem, e fizerem com que outros lha tributem.»”

A festa tem o fim de render o obséquio de nosso amor ao amor infinito de Jesus e a digna satisfação ou reparação devida ao Coração de Jesus, pelos inumeráveis pecados cometidos sobretudo contra a Eucaristia.

 

As Seis Promessas do Coração de Jesus

A partir do século 19, foram espalhadas doze (12) fórmulas abreviadas, que não são todas equivalentes às promessas de Jesus encontradas nos escritos de Santa Margarida Maria. As Seis Promessas autênticas são as que seguem (retiradas do livro A Grande Promessa, Ed. da Divina Misericórdia):

1ª - Para aqueles que trabalham pela salvação das almas
“Meu Divino Salvador fez-me entender que aqueles que trabalham pela salvação das almas, terão o dom de tocar os corações mais endurecidos e trabalharão com êxito maravilhoso se tiverem uma terna devoção para com o divino Coração.” (Vida, pág. 275 – II Obras, pág. 627)

2ª - Para as comunidades religiosas
“Ele me prometeu... que derramará a suave unção de sua ardente caridade sobre todas as comunidades religiosas que O honrarem e se colocarem sob a sua especial proteção, e desviará delas todos os golpes da divina justiça, a fim de colocá-las em estado de graça, quando tiverem caído em pecado.” (II Obras, pág. 300)

3ª - Para os leigos
“Os leigos encontrarão, por meio desta amável devoção, todo o socorro necessário a seu estado, ou seja, a paz nas suas famílias, o alívio nos seus trabalhos, as bênçãos do Céu em todos os seus empreendimentos, a consolação nas suas misérias e encontrarão, precisamente, neste Sagrado Coração, o lugar de refúgio, durante toda a sua vida e, principalmente, na hora da morte.” (II Obras pág. 627 – Vida, pág. 275)

4ª - Para as casas onde for entronizada e honrada a Imagem do Sagrado Coração de Jesus
“Assegurou-me que sentia um prazer singular em ser honrado sob a figura desse Coração de carne, do qual queria que a Imagem fosse exposta em público, a fim de tocar, por esse meio, o coração insensível dos homens.”
“Prometeu-me que derramaria com profusão, nos corações daqueles que O honrarem, todos os dons de que está pleno o seu Coração e que esta Imagem, em toda a parte onde for entronizada, a fim de ser especialmente honrada, atrairá todas as espécies de bênçãos.” (II Obras, pág. 627 – Vida pág. 275)

5ª - Promessas de salvação para com todos os que Lhe forem devotados e consagrados
“Eu me sinto toda abismada neste divino Coração. Nele me encontro como que num abismo profundo, onde me são revelados os te-souros de amor e de graças para com aquelas pessoas que a Ele se consagrarem e se sacrificarem, como fim de Lhe renderem e obterem toda a honra, amor e glória que estiver ao seu alcance.
Ele me confirmou que o prazer que sente em ser amado, conhecido e honrado pelas criaturas é tão grande que Ele me prometeu que todos aqueles que Lhe forem devotados e consagrados, jamais perecerão.” (II Obras, págs. 300 e 396)

6ª - Para aqueles que comungarem nas primeiras sextas-feiras de nove meses seguidos
“Numa primeira sexta-feira, durante a Sagrada Comunhão, Ele disse as seguintes palavras à sua indigna escrava:
«Eu prometo, na excessiva misericórdia do meu Coração, que meu amor todo-poderoso concederá a todos aqueles que comungarem, em nove primeiras sextas-feiras do mês seguidas, a graça da penitência final, que não morrerão na minha desgraça, nem sem receberem seus sacramentos e que o meu divino Coração será o seu asilo seguro no último momento.»” (II Obras pág. 397)

 

A consagração das nações ao Sagrado Coração de Jesus

Santa Margarida Maria recebeu a seguinte mensagem para Luís XIV, rei da França:

«Dize ao filho primogênito do meu Coração, que o Padre Eterno, querendo reparar as amarguras e agonias que o adorável Coração do Seu Divino Filho sofreu na casa dos príncipes da terra, no meio das humilhações e dos ultrajes da Sua Paixão, escolheu o nosso grande monarca para a execução de um grande desígnio... O Padre Eterno deseja que esse desígnio se execute da forma seguinte:

1º) Que se levante um templo, onde sobressaia a imagem deste Divino Coração.

2º) Este Coração adorável aí quer receber a consagração e as homenagens do Chefe de Estado e de seus ministros.

3º) Quer ser pintado na bandeira nacional e nas armas do país.

O Sagrado Coração quer estabelecer o seu império nos corações dos grandes da terra. Quer que esta devoção se estabeleça nos seus palácios, para ali ser tão honrado e amado quanto foi ultrajado e humilhado durante a sua Paixão na casa dos príncipes e dos reis...»

Brasil consagradoPor essa mensagem dirigida ao próprio governo da França, no século 17, Nosso Senhor manifesta o desejo de que a França em particular e em geral todas as nações prestem ao Seu Divino Coração um culto social e nacional.

O Brasil foi consagrado ao Coração de Jesus por 58 senadores, 250 deputados, 55 ministros de Estado e 60 vereadores do Distrito Federal em 24 de julho de 1955.

 

A consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus

Depois das revelações na França, foi de Portugal que chegou até o Vaticano o pedido para a consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus.

A condessa alemã Maria Droste zu Vischerig, depois Irmã Maria do Divino Coração em Portugal, ofereceu-se como vítima de expiação pelo país e seu clero, que vivia uma grande desordem. Nesse tempo, as promessas de Paray-le-Monial estavam quase esquecidas...

Em Roma, o Grande Papa Leão XIII era já de avançada idade. O seu pontificado tinha sido glorioso, mas faltava-lhe uma última pérola para a sua coroa de glória. Diz-se que ele próprio tinha recebido a inspiração diretamente do Céu, mas não se atrevia a levá-la a cabo. Por isso, o Coração de Jesus renovou o pedido, já feito no íntimo de Leão XIII, à Irmã Maria do Divino Coração: a Consagração de todo o gênero humano ao Sagrado Coração de Jesus.

Maria do Divino Coração, nas cartas que escreveu ao Santo Padre sobre a necessidade da Consagração do mundo ao Coração de Jesus, não deixou de pedir que Sua Santidade reavivasse no espírito dos católicos a prática das Primeiras Sextas-Feiras.

Leão XIII não só fez a Consagração do mundo em 11 de junho de 1899, como ordenou antes um Tríduo durante o qual foram cantadas as Ladainhas do Coração de Jesus, doravante em pé de igualdade com as do Santíssimo Nome de Jesus. Escreveu igualmente uma Encíclica, Annum sacrum, promulgada dias antes da consagração, a 25 de maio, com o anúncio oficial da consagração.

Maria Alice Soares de Castro

Fontes consultadas:
   Missal Romano
   Devocionário do Mês de Junho, do ano de 1875
   A Grande Promessa – Editora da Divina Misericórdia – R. Campinas, 475, Belo Horizonte, MG – 30280-090
   Os Dois Corações – Ana Maria Bessa, Portugal
   Folheto sobre o Ato da Consagração Cívica Nacional do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus